Primeiro aviso: os sistemas eleitorais também “votam”. Para usar a arrumação que fazia ontem El País, excluindo naturalmente os partidos localistas, a direita em Espanha – PP, Ciudadanos, Vox e Navarra Suma (coligação de PP e Ciudadanos) – teve 11 276 920 votos e elegeu 149 deputados, e a esquerda – PSOE e Unidas Podemos – 11 213 684 votos e 165 deputados. Porque é que a esquerda, com menos votos, conseguiu mais deputados? Porque os seus eleitores concentraram-se no PSOE, enquanto os da direita se dispersaram. Em 2016, a direita obteve menos votos do que este ano (11 129 988), mas mais deputados (169) graças à convergência de votos no PP. O sistema é igual para todos, mas os eleitores da esquerda, este ano, usaram-no mais eficazmente. O problema da direita não está no desaparecimento do seu eleitorado, que aliás nunca foi tão grande em Espanha, mas na incapacidade do PP para evitar a sua fragmentação. Incapacidade que não se deveu certamente à sua suposta “radicalização”, porque se alguma coisa definiu os concorrentes que lhe disputaram os votos, o Vox e um Ciudadanos que prometeu nunca entender-se com o PSOE, não foi exactamente a “moderação”, signifique isso o que significar.

O segundo aviso é este: o poder numa conjuntura de prosperidade é remédio para todos os males. Há um ano, o PP estava no governo e o PSOE, após sete anos de oposição, tinha o Podemos a 1 ponto percentual de distância (22,6% vs. 21,15% nas eleições de 2016). Pedro Sánchez, na sua reedição como líder socialista, parecia um morto que se recusava a admitir que tinha morrido.  Passado um ano, a sua vitória não foi propriamente épica, mas graças à dispersão à direita e ao colapso da extrema-esquerda, o PSOE voltou a ser o maior partido (vale agora o dobro de votos do Podemos). Que se passou? Isto: em Junho de 2018, Sánchez decidiu ir para o governo custasse o que custasse. Muitos socialistas avisaram-no de que um partido social democrata, europeísta e constitucionalista não podia misturar-se com radicais e separatistas. Seria “perder o centro”, seria o suicídio. Sánchez percebeu que suicídio era continuar na oposição. Foi para o governo, contando com o Podemos e o independentismo catalão e basco. É verdade que teve vida incerta. Mas pôde aproveitar o trabalho de Mariano Rajoy, que equilibrara as contas do Estado e restabelecera o crédito, para regalar os dependentes do Estado. Ganhou assim o tal “centro”, que não se incomodou muito que ele andasse à boleia de “extremistas”. A sua sorte, porém, não acabou aí. Em 2017, Rajoy derrotara o golpismo dos separatistas da Catalunha, que, por isso, se dispuseram a ser mais contidos. Até disso Sánchez tirou partido, para dar a ideia de que teria sido ele a trazer a distensão. António Costa tem um digno emulo do outro lado da fronteira.

O terceiro aviso é para os inocentes que ainda levam muito a sério o alarido que à esquerda se faz sobre a extrema-direita, e à direita sobre a extrema-esquerda: guardem as vossas indignações na gaveta com muita alfazema, porque Podemos e Vox só não farão parte de maiorias governamentais se não forem necessários. A lição das transições de poder em Madrid e na Andaluzia em 2018 é que nunca o PSOE ou o PP deixarão de ir para o governo se tiverem votos para isso, venham esses votos de onde vierem. Como António Costa provou em Portugal, todos os votos valem agora o mesmo. O luxo de excluir partidos ditos de “extrema-direita” ou “extrema-esquerda” durou, após a Guerra Fria, apenas enquanto os outros partidos não precisaram deles para disputarem o poder. A extrema-esquerda, por exemplo, exalta-se muito com a extrema-direita. Mas na Grécia, o Syriza governou durante quatro anos com um partido, o Anel, que se por acaso estivesse no poder em coligação com a direita, todos os dias seria denunciado como racista e fascista. A regra é simples: só os “extremistas” que ajudarem os nossos inimigos é que são maus. Não  vale a pena fingir que não é assim.