Uma família em isolamento, dia 90

Esta semana acabaram os pensos rápidos. Bem de primeira necessidade numa casa onde há crianças, os pequenos adesivos compridos de pontas arredondadas, com umrectângulo esponjoso e absorvente ao centro, são um misto de curativo, medalha por ferimentos de combate e fashion statement. Sobretudo se forem coloridos ou tiverem bonecos. Não há nada mais frustrante do que ter uma ferida e não poder alardeá-la com um carimbo atrativo.

Mas esta semana não houve honras de cartaz naquela ferida. Não havia pensos com carrinhos, com princesas ou com heróis de desenhos animados. Só havia dos outros. E aquela borbulha da minha filha, em sangue por ela a coçar tanto, apenas teve direito a um penso chato. “Põe um destes cor de pele”, disse-lhe eu. “É o que temos.”

Um penso cor de pele. Aborrecido. Sem bonecos. Sem dar nas vistas. Aquilo não eramedalha, não era nada. Era só um curativo. Discreto. Pelo menos para ela. Na pele dela. Se a minha filha fosse muito morena ou se fosse negra, se a pele dela tivesse aquele tom dourado escuro da pele de uma indiana, o penso já dava mais nas vistas. Mas não. Era “um penso cor de pele”. Não foi ela que o disse. Fui eu. Porque aquela é a cor da minha pele.

Nada de errado nisto e não tenho de me sentir mal por ter este tom entre o esbranquiçado, o rosa e o salmão, tão difícil de pintar com as cores habituais dos lápis coloridos das crianças. Esta é cor da minha pele. Mas não é a cor de pele de muita gente. Pode ser da maioria dos habitantes do meu país. Mas não de todos os habitantes do meu país.

Um penso rápido vale o que vale mas pode muito bem ser uma metáfora para a forma como vemos as coisas a partir do nosso mundo. Se disséssemos “um penso cor de pele branca” ou “um penso da cor da minha pele” talvez percebêssemos melhor a diferença. Talvez percebêssemos melhor que a nossa forma de ver o mundo enviesa-nos a forma como achamos que os outros o veem.

Eu sou branco. A minha mulher é branca. Vivemos num país onde a maior parte da população é branca. Nunca senti discriminação pela minha cor de pele. Nunca senti que as minhas filhas – brancas – fossem prejudicadas ou favorecidas pelo tom de pele que têm. Se calhar porque esta cor já vem com alguns privilégios a que nem dou valor por os considerar assumidos.

Essa é a minha realidade. Mas, vista daqui, a minha realidade é muito diferente da realidade de pessoas de outras cores ou etnias que também aqui vivem. Vista daqui, a minha realidade espelha a realidade da maior parte do meu país – branco. Mas não espelha a realidade de quem tantas vezes se sente discriminado.

Querem um bom exemplo? Nunca me chamaram “branco” para me ofender. Estudei em escolas públicas onde tive colegas de outras cores e etnias, as minhas filhas frequentam uma escola pública onde têm ainda mais colegas de mais cores e mais etnias. E, no entanto, quarenta anos depois de eu frequentar uma escola primária, continua a não se ofender nenhuma criança por a chamar de “branca”. Mas há muitas crianças “pretas” que continuam a ouvir isto de forma depreciativa.

Cresci nos anos setenta e oitenta nos subúrbios de Lisboa, numa cidade onde uma boa fatia da população vinha das ex-colónias. Na Amadora, as casas baratas do construtor J. (“Jota” João) Pimenta atraiam muitos retornados brancos que tinham regressado à pressa. As barracas erguidas em terrenosbaldios que começavam a ter prédios à volta atraiam sobretudo cabo-verdianos, alguns angolanos e guineenses.

Como todos os subúrbios, havia zonas mais seguras que outras. Todas as pessoas entre os 35 e os 50 anos que cresceram na Amadora ou em Benfica, mesmo ali ao lado, devem ter sido assaltadas pelo menos uma vez na vida – e por isso eu evitava algumas zonas da Reboleira Sul, da Damaia ou da Buraca. Este ou aquele bairro, esta ou aquela rua não eram seguros para um miúdo como eu. Nuns locais era um rapaz com um blusão quente onde outros não o tinham, noutros era um puto branco com óculos em sítios onde a cor da minha pele chamava a atenção.

E nesses locais – queeu evitava mas onde por vezes ia parar – ou noutros que julgava seguros para depois me arrepender, fui assaltado várias vezes. Por brancos, por ciganos e por negros. Acho até que fui assaltado mais vezes por brancos do que por negros ou ciganos. No entanto, quando falava disto aos amigos, em casa ou nas queixas à polícia, só se falava do “preto do caralho” ou do “cigano de merda”. Não falávamos do “branco filho da puta”. O branco só era carimbado pelo palavrão, não pela cor que usávamos para o definir. O branco só levava o carimbo, não levava a cor de pele para ser caracterizado. Era apenas “filho da puta”. Só adjetivo, sem substantivo.

E sabem o que tinham em comum todos estes locais que eu evitava: eram sítios pobres. Onde as pessoas viviam mal, em casas clandestinas feitas de tijolos roubados e placas de zinco ondulado, algumas com saneamento e outras nem por isso. Ou em prédios cuja construção tinha sido abandonada e que entretanto foram ocupados por quem precisava de um tecto. Onde as janelas eram substituídas por plástico esticado que era preciso reforçar no inverno e havia portas de ferro a substituir as de madeira que nunca tinham chegado a ser montadas. O branco, o cigano e o cabo-verdiano tinham cores diferentes mas miseráveis condições de vida iguais.

Nem todos os ciganos eram “ciganos de merda”, nem todos os negros eram “pretos do caralho” e a maioria dos brancos não eram filhos da puta. Mas na necessidade de catalogar as pessoas, a cor da pele era um carimbo muito prático. Tal como as classificações laborais: os pretos trabalhavam nas obras, os chineses tinham restaurantes, as brasileiras trabalhavam a dias ou eram caixas de supermercado, os indianos tinham lojas de bugigangas e artigos para a casa. Cada um bem arrumado na gaveta que nos dava jeito.

Foi assim que cresci: com as pessoas de outra cor ou proveniência arrumadas por tom de pele e categoria profissional. Era prático. Era natural. Estava entranhado. Já vinha de trás. E nunca questionei muito isso quando era miúdo. Nem em nome dos meus amigos negros, que não assaltavam ninguém, não viviam em casas degradadas e faziam tudo o que eu fazia nos sítios onde eu fazia.

Mas os micro-racismos estavam lá. Estão cá. Não passam em meia dúzia de anos. Nem numa geração, por muito informados que estejamos. Por isso é que tento explicar às minhas filhas que “a loja de fruta do chinês” ou “a mercearia do paquistanês”, no nosso bairro, são na verdade a loja do sr. Li e a mercearia do sr. Han. Por isso é que tento explicar-lhes que chamar as pessoas pelo nome em vez de nos referirmos a elas pela cor de pele ou proveniência nos aproxima mais delas. Por isso é que tento explicar-lhes que os protestos que se seguiram numa boa parte do mundo ocidental após a morte do norte-americano George Floyd debaixo do joelho compressor de um polícia branco são um alerta para chamar a atenção para o que importa mudar e para o que importa deixar as pessoas a pensar.

Sei o que apendi nos livros e o que defendem muitos investigadores, sei o que são os descobrimentos, o que os navegadores portugueses encontraram, que mundo ajudaram a construir, que poderio económico e militar o país alcançou a partir dos séculos XV e XVI, que “globalização” se começoua construir a partir de Alcácer-Quibir. Sei que a nossa ligação aos territórios que colonizámos contribuiu para esse entranhar de diferenças entre “nós” e “eles”. Os brancos que “descobriram”, que deram novos mundos, que exploraram.

Mas sei também que há um lado da história – onde estão os negros e ameríndios que foram “descobertos”, explorados e escravizados – que não é ensinado e que se soubéssemos mais dele poderíamos começar a mudar ligeiramente a percepção daquilo a que chamamos de racismo. E daquilo a que “os outros” chamam de racismo.

Volto ao início: visto daqui, do lado da classe média branca, é mais fácil falar disto. Falar daquilo que eu não sinto na pele. Acontece que o facto de não sentir não significa que isto não exista.

Não tenho de me sentir culpado por ser branco, por viver numa zona simpática da capital, por ter dinheiro para me sustentar e ajudar a sustentar a minha família. Mas posso fazer um exercício de empatia e tentar colocar-me na pele do outro, do que sente a discriminação.

Um amigo dizia-me ontem que somos todos racistas e que o racismo em Portugal não deve ser visto como um insulto que ofende individualmente mas antes como uma forma de organização que nos devia envergonhar a todos. Não tenho certezas quanto a isso, mas acho honestamente que há um racismo sistémico em Portugal. Talvez não faça de cada um de nós um racista em potência. Eu, como indivíduo, não sou racista. Como pai não educo as minhasfilhas no racismo. Mas isso não basta. Acredito que é preciso ser ativamente anti-racista e identificar os casos em que isso está entranhado.

Vivemos num país onde há ainda muitos racistas. Onde há ainda muitos que se recusam a fazer o tal exercício de empatia. É  verdade que é diferente dizer que Portugal é um país racista ou dizer que Portugal é um país onde há racistas. Mas se usarmos a primeira formulação fazemos deste um problema de todos. Se usarmos a segunda sacudimos a água do capote e deixa de ser uma coisa para todos resolvermos. E a nossa casa casa, com a educação dos nossos filhos, é um bom sítio para começar. Nem que seja a falar de pensos rápidos.

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