Governo

A carta (secreta) de António Costa ao Pai Natal /premium

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Quero pedir-te que os portugueses também não reparem muito no que se está a passar nos hospitais. Sei bem que o Centeno não investe lá há muito tempo e que as coisas estão mesmo a cair aos bocados…

Querido Pai Natal:

Nesta época do ano sei que recebes muitos pedidos, mas, como me portei tão bem (basta ver as sondagens), acredito que vais passar pela minha chaminé.

Queria-te pedir, antes do mais, muita saúde. Para mim, para a minha família, para os portugueses e para o Senhor Professor Marcelo. Ele é muito boa pessoa, tem muita energia e está sempre em todo o lado. As pessoas gostam muito dele e, enquanto não se meter muito na minha vida, desejo-lhe tudo de bom.

Peço-te que me ajudes com a Catarina e o Jerónimo – andam muito acirrados e tenho saudades dos tempos em que eram “cachorrinhos que ladram mas não mordem” (oops… se o senhor do PAN lesse isto zangava-se por causa lá da coisa das figuras de estilo com os animais – mas até calha bem, porque enquanto aqueles dois andam entretidos com estes assuntos o pau vai e vem…).

Também te peço que nos livres de um polícia do Governo – parece que se chama oposição. Sem ele, eu e os meus amigos podemos fazer o que nos apetece sem que ninguém nos dê um raspanete ou alguma coisa assim mais desagradável. É que o senhor do outro partido (já não me lembro do nome dele) nunca diz nada e assim é que está bem.

Peço-te ainda que os portugueses continuem muito quietos e mansinhos e não percebam que os estou a afogar num mar de taxas parecidas com as francesas e que passam quase metade do ano a trabalhar só para pagar impostos. É óptimo que continuem a vestir coletes apenas quando dão uns toques com os carros nas estradas esburacadas!

Querido Pai Natal: livra-me da gentalha liberal, que pensa pela sua cabeça e que quer tomar decisões (para isso estou cá eu, bolas). E livra-me dos empresários e das empresas (que maçada, esta coisa da economia) – estão sempre a empreender e a criar negócios novos e isso dá muito trabalho porque tenho que estar sempre a inventar impostos novos e a dar importância ao comité mortágua!

E queria pedir-te, especialmente, que emigrassem as empresas grandes e com lucros porque tenho que aturar a Catarina e o Jerónimo, que me atiram com o Marx à cabeça todo o tempo.

Peço-te também que a imprensa e a televisão continuem a ser muito minhas amigas. Aqui entre nós, se for preciso eu também lhes dou um presente, mas sabes que com a tua ajuda já não preciso de lhes mandar sms a dizer o que devem escrever como há uns anos. Agora têm-se portado tão bem que só é mesmo preciso que continuem assim, com juizinho.

Peço-te que os portugueses percebam que fiz um orçamento muito bonito e generoso e cheio de presentes para todas as pessoas que são funcionárias públicas. Eu sei que Portugal não é um país rico, acho que devemos muito dinheiro que vamos ter que pagar e por isso estar a dar tudo a todos parece-me um bocado perigoso e irresponsável porque depois não chega para algumas coisas urgentes. Mas é só mais esta vez – prometo!

Por falar em coisas urgentes: peço-te que também ninguém repare nas más condições das escolas, transportes, tribunais, prisões, quartéis, paióis, estradas e esquadras de polícia. Sei que as pessoas merecem ter comboios que não caiam aos pedaços porque ninguém lhes presta atenção, nem os conserta, nem os pinta; escolas que não metam água nem frio, onde as únicas pessoas felizes não sejam os professores (acho que os alunos também são um bocadinho importantes por lá); e paióis militares que não funcionem em modelo supermercado sem caixas (vai-se lá, aviam-se umas granadas e não se passa nada). O problema é que, como toda agente sabe, Portugal é um país pobrezinho e não há dinheiro para essas coisas.

A propósito: quero pedir-te que os portugueses também não reparem muito no que se está a passar nos hospitais. Sei bem que o Centeno não investe lá há muito tempo e que as coisas estão mesmo a cair aos bocados… Mas não é por mal, e enquanto não der muito nas vistas vou-me safando. Ah, e vê se me ajudas a meter juízo nos médicos e nos enfermeiros. Que diabo! Já trabalham só 35 horas, já têm horas extraordinárias, já lhes melhorei as carreiras e continuam a pedir mais. Deviam andar um pouco mais satisfeitos e caladinhos!

Peço-te, querido Pai Natal, que desta vez, pelo menos desta vez, prestes alguma atenção aos meus pedidos. É que vêm aí as eleições e, depois de tudo o que fiz, acho que mereço uma maioria absoluta para poder descansar desta maçada de ter de estar sempre a fazer de conta que sou amigo de todos. Prometo que com essa maioria vou arrumar de vez o país e restaurar aquela fase gloriosa em que quem se metia com o PS levava!

Conto contigo!

P.S. Por favor faz o teu melhor para manter esta carta secreta e longe da CM TV, senão ainda sou apanhado…

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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