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Estão a morrer, hoje, na União Europeia, 3478 pessoas por dia devido à Covid-19 (dados de 14 de Janeiro), cerca do dobro em excesso de mortalidade e o número de infetados está novamente em forte aceleração. O ano de 2021 anunciava-se auspicioso, mas se não houver alterações urgentes nas políticas sanitárias, acabará, provavelmente, tão mau em termos económicos quanto o anterior e com mais de 90 mil mortos por mês que passa, sem imunidade de grupo.

O único raio de esperança que resta aos cidadãos europeus é a vacinação em massa das populações. O primeiro objetivo é a vacinação dos grupos mais vulneráveis e, o segundo, atingir a imunidade de grupo. Vejamos, em termos aritméticos: para vacinar os grupos mais vulneráveis até finais de abril será necessário vacinar 130 milhões de pessoas e para atingir a imunidade de grupo é necessário “injetar no braço”, fazer a inoculação, a cerca de 250 milhões de pessoas até finais de setembro. Como as vacinas até agora mais adiantadas requerem duas doses, é necessário contar com o dobro daquelas inoculações nos prazos referidos. Para atingir estas metas é necessário dar 2,835 milhões de doses por dia até finais de abril, contando com todos os dias, e 2,083 milhões de doses por dia até finais de setembro. O objetivo dos EUA é vacinar três milhões de pessoas por dia e tem menos habitantes do que a UE. Como os especialistas daquele país indicam, é necessário mobilizar todo o sistema de saúde, sublinhamos todo, 24 horas/7 dias, e, mesmo assim, existem sérios problemas de disponibilidade de pessoal especializado, hoje ocupado no tratamento da doença.

As autoridades da União Europeia decidiram, e muito bem, coordenar a encomenda das vacinas para evitar a “corrida às vacinas” entre os países da União Europeia. Toda a logística de armazenagem, distribuição e vacinação das populações é da responsabilidade de cada Estado-membro, que já desenharam os seus planos de vacinação nacionais, embora não tenham enfrentado o teste da realidade. Mas falta aqui um elo fundamental na cadeia e que não parece claro na sua atribuição. Entre a encomenda e a entrega às autoridades nacionais é necessário produzir a vacina e distribui-la a cada país, o que foi deixado às grandes farmacêuticas.

Vejamos o ritmo de produção e entregas a nível nacional, necessárias para executar as metas acima referidas. De acordo com dados da Bloomberg, desde a última semana de dezembro e até ao dia 14 de Janeiro tinham sido dadas 4,206 milhões de doses na UE, o que corresponde a uma taxa de 0,95 por 100 pessoas. Nos EUA já haviam sido dadas 11,869 milhões de doses, a uma taxa de 3,61. Israel, que leva a liderança, já tinha uma taxa de 23,87 doses por 100 pessoas desde a segunda semana de dezembro.

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Ora, estamos bem longe de atingir o ritmo necessário para atingir aquelas metas. Para passar das centenas de milhar para quase três milhões por dia é necessário um esforço ciclópico.

Ora, o primeiro grande estrangulamento é acelerar a produção e distribuição da vacina a nível comunitário. Até agora, só estão disponíveis as vacinas da Pfizer/BionTech, Moderna e aguardamos a aprovação da AstraZeneca/Oxford. Porque é que as autoridades de regulação da UE levam mais três semanas a um mês a aprovar as vacinas do que as congéneres americana e inglesa?

A nível de produção, os estrangulamentos são mais do que evidentes. Segundo a informação disponível, existe a necessidade de expandir acentuadamente a capacidade de produção dentro da UE. Quando teremos a Moderna a produzir, ou a Pfizer a estender a sua capacidade para atingir as quantidades contratadas? Será que as outras grandes farmacêuticas não poderão também produzir as vacinas já aprovadas, antes mesmo das suas vacinas em investigação estarem disponíveis?

A Comissão informa, no seu site, que já contratou 1,160 milhões de doses às três empresas que já têm vacinas aprovadas em países da OCDE, o que seria suficiente sem contar com os pedidos dos nossos países vizinhos, mas não se sabe quais são os contratos firmes. Passou quase despercebida a decisão de só recentemente a Comissão ter decidido encomendar mais 200 milhões de doses, de tomada firme, da vacina à Pfizer, que só devem estar disponíveis no segundo semestre de 2021, quando a nível mundial assistimos à “corrida à vacina” entre os países mais ricos. Veja-se como Israel e os países do Golfo já conseguiram não só assegurar a entrega, como estão a vacinar a um ritmo muito superior aos países da UE. E a Rússia já está a acelerar a produção de uma vacina que parece ser quase tão eficaz como as já aprovadas. Já alguém pensou nas sérias implicações geoestratégicas destas tendências?

E depois de assegurada a contratação e fabricação desta expansão da produção, existirá coordenação entre as Autoridades Nacionais para controlar e pressionar as farmacêuticas para manterem o ritmo esperado de produção e distribuição das vacinas? Para informação dos cidadãos deveria existir um site da Comissão Europeia que informasse sobre as produções e distribuição aos Países-Membros.

Não será possível multiplicar os centros de produção da vacina? Existe um problema de patentes ou de propriedade intelectual? Nos EUA, a Operação Warp Speed conseguiu acelerar o processo de investigação da vacina, mas agora, com a passagem de Administrações notam-se sérios problemas de produção e distribuição. A Pfizer já pediu ao governo americano que faça uso das leis de emergência e de “guerra” para poder mobilizar as instalações, equipamentos e produção de matérias-primas requeridas para uma mais rápida expansão, mas, segundo a imprensa, aguarda decisão presidencial. Não existirá uma melhor solução na União Europeia?

Nos EUA e no Reino Unido já se estava a produzir a vacina ainda na fase de teste, para acelerar a sua produção. Não se fez em quantidade suficiente e na UE, tanto quanto se sabe, nada disto se fez.

Quais são as prioridades nas políticas da União Europeia, perante esta catástrofe humana? É necessário passar das palavras à ação. Os cidadãos da UE esperam mais do seu Governo.