O meu caro leitor deve sentir-se, no mínimo, enganado. Primeiro, disseram-lhe que o vírus vinha da China e do descuido do seu regime. Depois, disseram-lhe que a China ia descobrir a vacina e salvar a humanidade. De seguida, o presidente americano fez tudo para reproduzir a desinformação e politização da pandemia, como a China havia feito. Ao mesmo tempo, os países europeus fechavam fronteiras e não mostravam grande vontade de se ajudarem uns aos outros. Dentro de dias, lerá como a China enviou enormes carregamentos de máscaras e luvas para os nossos hospitais. E, com alguma justiça, o meu caro leitor perguntar-se-á: então, afinal, a culpa é de quem?

Haverá culpa?

1 Uma nova interdependência

Recuemos um pouco para ganhar perspectiva. Olhemos para a Europa e para a sua relação com a diplomacia chinesa desde o final de 2019. Em dezembro, o embaixador chinês na Suécia deu uma entrevista à rádio pública avisando que trata “os amigos com bom vinho e os inimigos com caçadeiras”, merecendo reprimenda governamental; em fevereiro, o governo checo pediu a demissão do embaixador chinês na República Checa após revelar cartas “ameaçadoras”; o embaixador chinês na Alemanha não chegou a ir tão longe nas alegorias, mas também garantiu “consequências” caso o governo alemão rejeitasse a Huawei na instalação das redes 5G. Na Estónia, na Lituânia, na Polónia e na Dinamarca sucederam episódios de tensão semelhante.

O impacto do coronavírus veio alterar radicalmente os posicionamentos e as prioridades de ambos os lados: os embaixadores chineses baixaram o tom e os governos europeus também, pois precisam da China, que assegurou quase toda a cadeia de produção de máscaras e ventiladores no planeta ao aperceber-se do que aí vinha.

O debate, a partir de agora, já não será travado entre as noções de aliado e parceiro; será marcado por uma nova interdependência gerada pelo covid-19: a Europa depende da China para a sua sobrevivência sanitária; a China dependerá da Europa para a sua sobrevivência diplomática.

Portugal, revelou o primeiro-ministro esta semana, fez a sua primeira encomenda de ventiladores a uma empresa chinesa.

2 Contabilidade e propaganda

No domingo, o Público noticiou o horror que se vive nas prisões brasileiras devido à atual pandemia. Uma reportagem, sem dúvida, pertinente. Peço agora ao meu caro leitor para imaginar como estarão os milhares de presos nos campos de concentração em Xinjiang, na China, onde a falta de condições de higiene e distância social são ideais para a propagação de um vírus como o covid-19. Pense bem nisso, meu caro leitor, da próxima vez que qualquer governo português mande parar o Marquês de Pombal para Xi Jinping passar de carro.

Peço-lhe também, meu caro leitor, que tire dois minutos do seu dia e leia a conta do porta-voz dos Negócios Estrangeiros da China no Twitter, uma rede proibida para o cidadão chinês comum. Verá, com alguma estupefacção, o empenho das autoridades chinesas em contabilizar os mortos de coronavírus registados fora da China, como que ilibando o regime chinês de qualquer responsabilidade. É isso mesmo, meu caro leitor. A China está a usar o número de mortos europeus como propaganda, como álibi para a sua gestão do vírus desde o ano passado. Vou repetir, porque não o digo de ânimo leve: a China está a usar mortos como propaganda.

Se lermos o Global Times, um jornal do regime, propriedade do seu Comité Central, apercebemo-nos de atitudes de similar desumanidade. A 11 de março, a publicação estatal assumia que se os Estados Unidos excluíssem a Huawei da instalação do 5G não teriam acesso a máscaras e material médico fabricado na China. Sim, também é disto que estamos a falar: um país que usa uma pandemia para fazer chantagem e promover as suas empresas. Pense bem nisso, meu caro leitor, da próxima vez que vir um político português encantado com dinheiro chinês.

3 Do pau e da cenoura para as palas e cenouras

A China quer, ao mesmo tempo, ser o problema e a solução, a origem do mal e a fonte dos bens. O mais bizarro não está nessa intenção; está no facto de conseguir fazê-lo. A duplicidade com que a Europa encarou a diplomacia chinesa nos últimos anos – com uma face comercialmente amigável e outra democraticamente consciente – é idêntica à forma como a China está a lidar agora com os governos europeus: a mão que ajuda a resolver a pandemia é a mão que lava as responsabilidades da pandemia.

Quando o embaixador chinês nos EUA contradiz o ministério dos Negócios Estrangeiros do seu país, espelha a resposta dual da China ao coronavírus: desinformação agressiva, por um lado, soft power (exportação de máscaras, etc.), por outro.

Ontem, o alto representante para a política externa da UE identificou essa dicotomia como uma “luta por influência através de spin e generosidade”. Em dialeto diplomático, a China está a substituir a doutrina do “pau e da cenoura” por uma tática de palas e cenouras. O burro, nessa velha metáfora, seríamos nós.

Mas atenção: perante a latência europeia e a hibernação americana, compreende-se que os governos nacionais agradeçam a Pequim qualquer auxílio. São vidas que se salvam. E será tão importante lembrar quem as salvou como o que as levou.

A Europa atrasou-se a acordar para a tragédia porque a China adiou – e ocultou – a proporção da tragédia. Não esqueço, e espero que ninguém esqueça, o infame relatório que as autoridades chinesas entregaram à Organização Mundial de Saúde, negando qualquer caso de contágio inter-pessoal de coronavírus em Wuhan. Como também não esqueço, e espero que ninguém esqueça, os vários médicos chineses que tentaram a todo o custo divulgar os perigos do covid-19 e que foram detidos, intimidados e censurados pelo regime chinês.

É por respeito à sua coragem que não podemos ser complacentes com o regime de Xi Jinping. É em sua memória que devemos resistir à avalanche de desinformação que emana de Pequim, cujo objetivo é criar uma realidade que não distinga verdade de mentira, facto de falsidade. Essa realidade é uma arma que está do lado do vírus porque prejudica – e prejudicou – ativamente o seu combate, porque não se vencem pandemias sem transparência, sem números fiáveis e sem escrutínio.

Ao expulsar as equipas de jornalistas do New York Times, do Washington Post e do Wall Street Journal, há dias, o regime chinês confirmou a sua preferência pela opacidade.

4 Uma alternativa urgente

Na nossa história recente, cada fracasso da União Europeia, tanto na dimensão estratégica quanto na solidária, traduziu-se num sucesso da República Popular da China. Foi assim na crise das dívidas soberanas, em que os países do sul não tiveram outra hipótese que não a de vender as suas infraestruturas ao país que a Europa, que os forçava a vender, hoje chama “rival sistémico”. E também foi assim depois da crise do euro, em que os mesmos países do sul, desesperados pelo investimento que as regras orçamentais impediam, abriram portas à iniciativa de financiamento de Xi Jinping – a Belt and Road.

Portugal é um exemplo de tudo isto: a nossa aproximação a Pequim não tem nada a ver com ideologia – é, há anos, consensual entre os partidos de poder –, tem a ver com ausência de alternativas.

Hoje, com a crise sanitária e económica do coronavírus, o vazio das instituições europeias poderá provocar novamente uma vitória geopolítica chinesa. E é importante evitá-lo.

Esta pandemia era uma oportunidade única para os Estados Unidos da América reavivarem a relação transantlântica e o seu papel de liderança global; Donald Trump não só enfiou essa oportunidade no lixo, como deu um valente pontapé no caixote. A União Europeia, meu caro leitor, deveria ter o cuidado de não se pontapear a si própria.

5 Cinismo e ingenuidade

Em Portugal, apesar de tudo, há um silêncio generalizado, cobarde e ignorante sobre o regime chinês. No Observador, os artigos de Diana Soller e Inês Domingos foram duas raras exceções – não neste jornal, mas na imprensa generalizada.

Nos partidos políticos, o Bloco de Esquerda, a Iniciativa Liberal e, ironicamente, o Partido Comunista são as três forças que ousam ocasionalmente expressar-se sobre a maior ditadura do planeta. Se não é uma pandemia que muda isso, nada mudará. E quem diria que a cura para o coronavírus acabaria por ser uma de duas: o cinismo ou a ingenuidade.

Talvez munido de ambas o mundo possa continuar a ignorar a verdade sobre a China.