A Covid-19 é mais letal para os homens. Mas são as mulheres as principais vítimas das medidas de contenção da pandemia, nomeadamente dos confinamentos. Em França, na primeira semana de confinamento, a violência doméstica aumentou 32%. Na Lituânia, foram 20% em três semanas. E em Espanha, 18% numa quinzena. Foram também as mulheres que mais esforço exerceram para estar na primeira linha de combate à pandemia — nos serviços de saúde, 76% dos profissionais cuidadores são mulheres. Se olharmos para o desemprego, os dados também não são animadores. Em Dezembro 2020, nos EUA, as mulheres perderam 156 mil postos de trabalho e os homens ganharam 16 mil. Se se comparar a taxa de desemprego das mulheres entre Dezembro de 2019 e de 2020, verifica-se que duplicou. E olhando a todos os empregos perdidos desde o início da pandemia, 55% são de mulheres. O que não surpreende se se constatar que, nos EUA ou na Europa, as mulheres ocupam uma parte substancial das profissões mais abaladas pela pandemia (hotelaria, trabalho doméstico, venda ao público).

Portugal não é excepção neste retrato. As mulheres portuguesas passam cerca de 4h30 diárias em tarefas domésticas (os homens apenas duas horas). Na OCDE, pior do que nós só mesmo na Turquia. Com o confinamento, a pressão nessas tarefas aumentou. Pior: como Portugal é já um país recordista na duração de encerramento de escolas básicas, tudo isso foi acumulado com o apoio aos filhos no ensino a distância, num muito exigente sacrifício pessoal e profissional — que resultou frequentemente em inactividade laboral. E com a frustração, como seria de esperar, as situações de tensão e de violência física ou psicológica multiplicaram-se.

Eu sei que escrever sobre desigualdade e mulheres atira a discussão para o campo da ideologia e para a inconsequente gritaria das redes sociais. E também sei que o tema parece estar demasiadas vezes capturado pelos piores radicalismos, suportados na inconsistência das visões identitárias. Mas tudo isso é enviesamento próprio de panfletários. O ponto aqui é muito simples: as políticas públicas geram efeitos — alguns esperados, outros inesperados — nos sectores onde se aplicam e não raramente esses efeitos manifestam-se de forma desigual entre homens e mulheres. Isto é problemático se os efeitos forem inesperados e acentuarem o fosso existente entre mulheres e homens. E, quando assim acontece, compete a quem desenha políticas públicas percebê-lo, corrigir os efeitos indesejados e compensar os prejudicados. Ponto final. Existem dezenas de exemplos (na educação, na segurança social, na saúde, na legislação laboral) onde esses efeitos indesejados aparecem e justificam medidas de compensação destinadas especificamente a mulheres ou a homens.

Os efeitos da pandemia estão na vida real, são palpáveis e nada têm de ideológico: todos os indicadores acima resultam de dados e evidências confiáveis. E todos apontam no mesmo sentido, seja no desemprego, na pressão familiar, na violência, no apoio aos filhos em casa: vivemos há um ano em pandemia e, nesse período, o impacto foi desigual entre homens e mulheres, para prejuízo das mulheres. A questão que se coloca agora: encolhem-se os ombros ou faz-se alguma coisa? O silêncio sobre este debate esclarece: as mulheres podem fazer parte dos discursos, mas moram no ângulo morto das políticas públicas de combate à pandemia.

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Não seria justo nomear culpados únicos para essa indiferença ou simplesmente apontar o dedo acusatório ao Governo. A pandemia agravou um desequilíbrio estrutural já existente na sociedade portuguesa e, se tanto do mais elementar está a falhar (na educação, na saúde ou na economia), seria estranho se não falhasse também a resposta para as desigualdades dos efeitos da pandemia sobre as mulheres. Dito isto, apesar de demonstrar consciência do problema, o Governo pouco tem feito para o elevar nas suas prioridades, para o corrigir ou para o atenuar.

Mais importante é esta constatação: recusar a enumeração dos culpados não significa que abundem os inocentes. Quem pede confinamentos longos e sucessivos, quem acha que as escolas só devem reabrir em Junho ou até em Setembro, quem garante que #vaificartudobem, quem insiste no mantra #fiqueemcasa, quem quer negócios fechados sem data de reabertura, quem toma estas posições está a contribuir, mesmo que involuntariamente, para a degradação da situação das mulheres. Está a cavar mais fundo o fosso da desigualdade. Querem defender as mulheres? Óptimo. Mas, hoje, isso dispensa apelos panfletários e slogans ideológicos e faz-se, simplesmente, reagindo aos efeitos dos confinamentos.