O título desta crónica não é muito original – mas é o que me apetece escrever. É mesmo o que devo escrever. Não porque aprecie especialmente o Charlie Hebdo. Na verdade, nunca gostei muito da publicação, cujo humor roça por vezes a boçalidade e onde se chegava a desenhar com um sentido pornográfico não muito diferente do nosso desaparecido José Vilhena. Mas isso não interessa. O que interessa é que as balas hoje disparadas na redacção do Charlie Hebdo foram balas disparadas contra todos os jornalistas, contra todos os que defendem a liberdade de expressão, contra todos os que apenas desejam viver numa sociedade aberta, tolerante e plural.

A tragédia não é só do Charlie Hebdo, nem só dos parisienses ou dos franceses. É do jornalismo mundial. É de todos os homens livres.

A equipa do Observador na tarde do ataque

A equipa do Observador na tarde do ataque

Na verdade estamos todos de luto. Luto pelos que morreram, os jornalistas e também os polícias. Luto por termos ficado todos menos livres. Isso mesmo: menos livres. No dia de hoje, por todo o mundo, vamos estar solidários e indignados; amanhã muitos pensarão duas vezes antes de escreverem, de filmarem, de reportarem. E depois de amanhã até pode acontecer que surjam mais leis anti-blasfémia, que mais gente veja na crítica a certas práticas dos islamistas uma condenável “islamofobia”. Já aconteceu, está a acontecer, é possível que aconteça ainda mais.

Recordo-me bem do debate em torno dos cartoons de Maomé, publicados por um jornal dinamarquês. Lembro-me bem de quantos condenaram mais depressa a provocação – e era uma provocação – do que as ameaças de morte proferidas um pouco por todo o mundo muçulmano.

Recordo-me também do assassinato de Theo Van Gogh, o cineasta holandês assassinado por realizar um documentário sobre a condição da mulher nas sociedades muçulmanas, mas recordo-me sobretudo como, pouco tempo depois, a mesma Holanda cedeu às pressões e obrigou Ayan Hirsi Ali, uma somali que fugira do seu país e renunciara à fé islâmica, tendo sido a argumentista do filme de Van Gogh, a trocar o país das tulipas pelos Estados Unidos. Na altura ela, que até chegara a ser deputada, escreveu que “o islamismo radical não é apenas contra mim, é contra todos. Ao ter conseguido expulsar-me, os terroristas ganharam, o que torna a situação mais perigosa para todos”.

É por isso que o nosso choque (um choque porventura maior em todos os que viram o vídeo da forma como os terroristas assassinaram, com um tiro na cabeça, um dos polícias) e a nossa indignação não pode ficar por proclamações como a do título desta crónica.

As manifestações de intolerância dos radicais islâmicos, que numa altura de sobressalto todos condenamos, não podem levar-nos, passada a indignação, a tratar de encontrar explicações, desculpas ou remédios. Temos de poder ser livres de nos pronunciar sobre a religião islâmica com o mesmo grau de liberdade com que nos pronunciamos sobre outras religiões. Quem escreve tem de poder escrever com liberdade, não pode andar escondido, como Salman Rushdie andou anos a fio depois de ter sido alvo de uma fatwa. Quem escreve só deve ter como limites o bom senso e o respeito pelos sentimentos alheios, sendo que saber onde se situam os limites desse respeito é exclusivamente matéria de debate público, não de leis ou normas destinadas a prevenir “blasfémias”.

Tenhamos pois coragem. Esta é uma linha da frente da batalha pela civilização que somos. Porventura a mais importante de todas as linhas de batalha. Se não formos capazes de defender, até às últimas consequências, a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa, então ficaremos mais perto da França apática (e islamizada) imaginada por Houellebecq. Até porque há ficções que às vezes são mais reais do que a realidade.

Honremos as palavras de Stéphane Charbonnier, aliás Charb, desenhador e director do Charlie Hebdo, hoje assassinado: “Prefiro morrer de pé do que viver de joelhos”.