O filme passa-se num tempo em que não existe internet e na colónia não há televisão ou quase não conta para a vida quotidiana, como os jornais e, embora menos, como a rádio. A Península Ibérica é a colónia. Os australianos, vindos dos antípodas não se sabe bem quando, os colonizadores. Os nativos ibéricos vivem dispersos pelo extenso território, divididos por uma pluralidade de idiomas.

A dada altura, começam a aparecer militares enviados pela metrópole, Camberra. Eclodiu a guerra na colónia. Chegados, os militares passam uns dias nos quartéis de cidades portuárias como Sevilha, Lisboa ou Gijón. São em geral jovens a quem a vida forçou a permanecer uma temporada num território estranho, num tempo em que os idealismos andam à solta pelo mundo.

Sempre que podem, os recém-chegados australianos aproveitam os primeiros dias para descomprimir. As zonas de vida noturna das cidades onde estacionam são as mais procuradas. Depressa chega a ordem de marcha para a frente de combate. O destino final é um lugar recôndito, algures num tal País Basco. Aí sobrevivem no limite das suas existências, em luta contra uma guerrilha quase invisível, mas que vai fazendo matar, morrer, mutilar, sofrer. Longos dias de tréguas intervalados por dias agitados. É o imprevisível que torna a violência sempre latente e as rotinas da vida militar crescentemente desgastantes. O clima esquisito não ajuda. Também não há por perto afetos da família, dos amigos de sempre, nem o conforto dos lugares da infância.

Ultrapassado o pior, sobram uns poucos dias de nova descompressão nas cidades portuárias. Desta feita mais para afogar traumas do que para controlar ansiedades debutantes. Segue-se o desejado regresso ao lar. Na Austrália, eles passam a ser veículos por excelência de como se vive e como são as terras longínquas. Os seus testemunhos na primeira pessoa entram e ficam nas cabeças dos seus conterrâneos, mesmo dos mais comuns ou dos aparentemente indiferentes. Vão tomando conta do ambiente intelectual e social da metrópole. Discursos de sentido contrário tornam-se cada vez mais abstratos, sem sentido, vazios, velhos como o império.

Novas teses sombrias sobre o ultramar propagam-se na metrópole. Nos territórios do outro continente vive-se entre a desordem social e a imoralidade nos espaços excecionais onde não há guerra. O resto anda a ferro e fogo e é quase só mato. O País Basco não é retratado apenas como um lugar na extensa e heterogénea Península Ibérica. O País Basco é a Península Ibérica.

Para um australiano decente fica a faltar apenas um clique para tomar como irrefutável a tese de que os longínquos povos ibéricos merecem a independência imediata. Nada restará para negociar. Não haverá motivos para hesitações. Visto dos antípodas, apenas raros lunáticos instigados por colonos carrascos de indígenas – por isso ficaram ricos enquanto os da metrópole continuam pobres e, por cima, a ter de morrer por eles – poderiam pensar diferente.

Nada como conhecer por telepatia para apurar estereótipos. Acrescente-se o envolvimento das massas. A receita para a tempestade perfeita está pronta.

Torna-se quase impossível que na Austrália não se imagine, do outro lado do mundo, em cada família, casa, rua, povoação, aldeia, caminho um denominador comum: um ódio profundo, de morte, irremediável, que se arrasta por séculos dos ibéricos aos australianos. A profecia autorrealizada tem tudo para não desiludir. Ouvir as partes seria absurdo. O julgamento dos colonos não era sequer justificável. Avançar diretamente para o veredito será o desfecho lógico. Falta o tal clique.

Nessa Austrália, pouquíssimos passam a duvidar da fortíssima representatividade dos líderes da ETA. Os povos ibéricos, em massa, estão com eles. Sempre estiveram. Ademais, os ibéricos não têm tradição escrita. A característica aproxima-os de muitos colonos. Os últimos, em geral gente humilde vinda da metrópole, rude no trato, mas é dessa mesma rudeza que alimenta o ânimo com que desbrava matos, faz pela vida, cria um país moderno do nada. Duas ou três gerações bastaram. Mesmo com essa energia e engenho inesgotáveis, os colonos perderiam por muitos com os seus parentes metropolitanos quando a argumentação escrita, intelectual, romântica, poética, lírica, ideológica, filosófica, ensaística fosse decisiva numa qualquer disputa. O abstrato desejável esmagaria o concreto possível.

Dominar com mestria o verbo falado e escrito metropolitanos era ser dono do sentido do tempo. Os ambientes letrados em crescendo na metrópole nos anos da guerra inclusivamente dispensam os muitos linguarejares esquisitos dos autóctones ibéricos. Isso jamais os embaraça. Afinal, a minúscula elite guerrilheira da ETA exprimia no mais fluente idioma do colono a sua aversão à colonização australiana. Em mentes intelectuais revela-se indubitável que o mais profundo da alma do indígena ibérico se manifesta sem necessidades de tradução. Daí que entre os letrados não faltasse quem – com muita clareza, convicção, generosidade, abnegação – falasse e escrevesse em nome dos indígenas ibéricos. O detalhe da esmagadora maioria dos últimos, na melhor das hipóteses, limitar-se a uma vaguíssima noção do seu papel no enredo nunca passou disso mesmo, minúsculo detalhe.

Porém, há epifanias que despertam os povos. A da gente comum ibérica chegou em formato de terramoto. O seu ramerrame quotidiano fica profundamente abalado. O epicentro é muitíssimo mais distante do que o já de si longínquo País Basco. Onde quer que se localize, pela metrópole militares, poetas, intelectuais, prosadores, músicos, professores, ideólogos, panfletários e o mais, quase em uníssono, anunciam que este lado do mundo deixou de contar para eles. A mensagem é inequívoca: os ibéricos que tratem de si. Têm uns dias para se preparar.

Para sobreviverem ao tsunami que se forma na zona costeira do País Basco, descendentes de colonos e colonos, e não só, iniciam a fuga precipitada. Às vezes em 24 horas com 20 quilogramas da bagagem das suas vidas, o máximo permitido nas viagens aéreas. Sem retorno e para desembarcarem “retornados” na outra parte do mundo desconhecida para muitos: Camberra.

Na Península Ibérica deixada para trás, desaparecida a elite colonial e tudo o que significava, silenciadas as elites tradicionais ibéricas acusadas de conivência com o inimigo, o poder do Estado sobre os indivíduos é renovado a fundo. Independência passa a significar suplantar o velho autoritarismo pelo novíssimo totalitarismo. Ou algo aparentado. De agora em diante, os antigos guerrilheiros da ETA, ungidos no poder pela recém-revolucionária metrópole, têm diante de si uma sociedade decapitada de elites. Em qualquer tempo ou lugar, tais circunstâncias tornam impossível as comunidades resistirem aos usos e abusos do estado. A rédea de quem manda anda solta como nunca. Meio caminho andado para se rumar ao desastre na antiga colónia. É contar os dias.

Entretanto, na última etapa da era colonial, precisamente nos anos da guerra, a Península Ibérica tinha vivido tempos raros. Por pressão da guerrilha da ETA, pelos sinais dos tempos, pelo despertar da consciência de quem mandava – tudo em conjunto que só dons divinos permitem garantir que foi “isto” e não “aquilo” – acelerara-se a passagem à história da rudeza dos tempos coloniais remotos. As condições de vida das populações haviam melhorado de modo substantivo. Salvo no País Basco, a multiplicidade de indígenas que habitavam nas suas terras de sempre não acordava, não vivia, não dormia a matutar na guerra. Mesmo quando os sinais dela se atravessavam no quotidiano, eram remetidos para a categoria do zunzum, para qualquer coisa que acontecia num lugar longínquo, não se sabia bem onde nem muito bem quem andava aos tiros e para quê. A vida seguia estável, previsível, com futuro. Lisboa, Barcelona, Sevilha, Madrid, Porto, Bilbau – exemplos num extenso território que ia prosperando precisamente nos anos da guerra no País Basco.

O tempo passou. Novas gerações de australianos, sem qualquer ligação ao passado colonial, emigram para a Península Ibérica há décadas independente. Outros vão de férias. Os naturais notam nestes estrangeiros um tique curioso. Ficam admirados ao primeiro impacto do legado civilizacional dos seus antepassados. Alguns perdem o embaraço e confidenciam aos autóctones ibéricos que estavam à espera de encontrar quase só casas rudimentares, um ou outro posto administrativo, raro cimento ou asfalto. E muito atraso. Não cidades modernas e demais património material e cultural de tempos antigos que os ibéricos se esforçam por manter ou recuperar, usando e abusando da palavra “reabilitação”. Sintoma de quem continua a apanhar os cacos de uma longa e devastadora guerra civil, cuja semente seguiu com a ETA quando esta migrou das circunscritas terras bascas para libertar toda a península.

In loco, nas terras ibéricas, qualquer coisa deixa de bater certo nas mentes das novas gerações de australianos que continuam a aprender verdades telepáticas sobre a era ultramarina. Não se ralam muito. Ultrapassaram a idade dos porquês. Agora os povos são irmãos. O futuro é o que conta.

Esta ficção tem subtítulo: “Um filme sobre a arte de apagar da história o quotidiano e a gente comum.”

Se a ficção não se deve confundir com a realidade, a 18 de setembro de 2014, num tempo em que lhes foi garantido o direito de pensarem, de pesarem vantagens e desvantagens, de decidirem cada um por si, os escoceses puderam manifestar-se antes de se aventurarem na independência. Demonstraram o óbvio: um povo da contemporaneidade não é uma massa homogénea. Ao fim de mais de dois séculos de independências, com o seu “Não” a história passou a dever aos escoceses a introdução de doses substantivas de racionalidade numa causa a que os povos têm direito inalienável a lutar por ela. Contudo, é de elementar bom senso resfriar precipitações, euforias, radicalismos. Ainda que um dia os escoceses venham a decidir-se pelo “Sim”, é provável que a independência do seu país não rebobine certos filmes passados.

A Catalunha é a próxima paragem. Moçambique e Angola ficaram para trás.