1 Marta Temido está notoriamente cansada e stressada. Concordaremos todos que o seu trabalho não é fácil, sem dúvida, mas as suas últimas declarações revelam uma governante desnorteada e são impróprias de quem preza as regras do jogo democrático. Uma coisa é ser aguerrida e querer defender o seu trabalho, outra coisa é insultar quem a critica como sendo “criminoso”, queixar-se de que está a ser vítima de bullying (outro insulto para quem é realmente alvo dessa prática que deixa marcas em muitos jovens) e ainda acusar a oposição parlamentar de tentar fazer política com os mortos desta crise pandémica quando a função dos deputados é precisamente escrutinar o Executivo e a ausência de resultados.

Não, dra. Marta Temido, ninguém fica calado perante o caos no combate à pandemia que é constatado diariamente. E não, dra. Temido, os portugueses não podem ficar apenas contentes com o facto de estar a dar o seu melhor. Muito mais quando a senhora, o seu primeiro-ministro e a maioria do PS recusam-se terminantemente a reconhecer os erros e a pedirem humildemente desculpa aos portugueses por estarmos nas bocas do mundo. Não, dra. Temido, o seu melhor não chega.

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Sabe quem diz isto, sra. ministra? Não sou eu, um humilde “criminoso” do escrutínio jornalístico. São uns ‘criminosos’ com mais know-how, tipo médicos, epidemiologistas e infeciologistas que estão na primeira linha do combate à covid-19. Será que esses ‘criminosos’ a poderão criticar, sra. ministra? Vamos passar-lhe a palavra.

  • ‘Criminosa’ n.º 1 — Patrícia Pacheco, diretora do serviço de infecciologia do Hospital Amadora-Sintra

Esta médica especialista deu uma entrevista aterradora ao Observador. Além de se sentir perturbada com a “apatia assustadora” da população perante os 200/300 mortos diários, Patrícia Pacheco diz que há “falta de honestidade e de transparência” da “liderança do Ministério da Saúde”. Porquê? Por “desvalorizar sistematicamente os problemas que existem, em vez de os encarar” e por fazer uma “gestão errática da pandemia”.

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. ‘Criminoso’ n.º 2 — Francisco Antunes, infecciologista do Instituto de Saúde Ambiental da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa

Tal como a sua colega Patrícia Pacheco, Antunes censura o Governo Costa por não ter “entendido o problema que estávamos a viver antes do Natal“, quando a maioria do país tinha mais de 240 novos casos por cada 100 mil habitantes e um número de óbitos demasiado elevado.

O médico diz ainda que não foi feito o esforço que se impunha para aumentar “a capacidade de testagem para identificar os casos assintomáticos e mantê-los isolados” ainda antes do Natal. E ainda que o Governo se atrasou a encerrar as escolas. “Foi este atraso, este impasse, que pôs toda a floresta a arder”, porque assim não se impediu que “pais e alunos” propagassem o vírus após o Natal, diz Francisco Antunes.

  • ‘Criminosos’ n.º 3 e 4 — Tiago Correia, professor de Saúde Internacional do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa, e Rui Nogueira, médico de saúde geral e familiar

Estes dois médicos contestam igualmente a forma como as medidas restritivas foram levantadas para o Natal mas têm outro ângulo de ataque: a forma como o Governo, e Marta Temido em particular, organizaram uma “verdadeira campanha de marketing” e de uma “publicidade institucional” em torno das vacinas da Pfizer/BioNTech, diz Tiago Correia.

Rui Nogueira diz que as declarações e o espetáculo mediático do Governo em torno da vacinação promoveram uma “falsa sensação de segurança” quando “a comunidade cientifica pediu cautela”.

  • ‘Criminoso n.º 5 — Constantino Sakellarides, médico epidemiologista e professor catedrático da Escola Nacional de Saúde Pública

O ex-diretor-geral da Saúde no tempo do Governo de António Guterres (PS) diz que houve uma falha dos inquéritos epidemiológicos. Na prática, estes inquéritos nunca foram uma arma eficiente contra a pandemia, quando eram essenciais para identificar as cadeias de contágio. Porquê? Porque o Executivo nunca contratou o número necessário para as equipas serem efetivamente operacionais.

Mais: o médico epidemiologista diz que “o Governo não está a receber aconselhamento científico adequado.” Pior: está a usar as reuniões do Infarmed como escudo de proteção.

3 Será que a sra. ministra Marta Temido sabe no que é que os ‘criminosos’ n.º 1, n.º 2, n.º 3, n.º 4 e n.º 5 são unânimes? Na conclusão de que não tem qualquer fundamento a explicação do Governo para o caos do mês de janeiro: a famosa estirpe inglesa e a alegação de que a mesma só se tornou perigosa depois do Natal, como o primeiro-ministro António Costa já afirmou várias vezes.

Patrícia Pacheco, por exemplo, não concorda com a justificação de que a situação atual se explica com a variante inglesa. Como podia acreditar nessa tese quando a estirpe foi comunicada pelo Reino Unido publicamente e à Organização Mundial de Saúde a 14 de dezembro e quando a 20 de dezembro o colega britânico de Marta Temido anunciou que a situação estava descontrolada em solo britânico? Tudo antes do Natal.

Além de nada ter sido feito na altura depois de 14 de dezembro, como fechar as fronteiras com o Reino Unido ou encerrar voos (o que outros países fizeram) ou obrigar à realização de testes para entrar no país, também nada foi feito em julho ou agosto, “não se preparou (…) o plano outono-inverno”, afirma a médica.

Francisco Antunes, Tiago Correia, Rui Nogueira e Constantino Sakellarides garantem que a nova estirpe já circulava pela Europa antes do Natal e inevitavelmente chegaria a Portugal. “Chegámos a um absurdo, a certa altura, em que era mais fácil sair do país, do que sair de casa“, diz Tiago Correia.

4 Lamento, sra. ministra da Saúde, mas também eu me confesso ‘criminoso’ porque em nenhum país desenvolvido o escrutínio e prestação de contas ficam suspensos perante uma catástrofe diária. Os portugueses não podem, como diz Patrícia Pacheco, ficar apáticos ao saber diariamente que foi quebrado um “novo recorde de infetados e mortos” devido à covid-19, ao descobrir que as vacinas são desviadas para os amigos da pastelaria e das francesinhas ao lado, ao saber que os líderes nacionais do INEM vacinam as empregadas de limpeza e os porteiros, ao ler que os líderes dos lares e autarcas criminosamente se vão vacinando uns aos outros, ao ouvir que os funcionários públicos do PS se aproveitam da ausência de fiscalização decretada pelo seu próprio Governo para também se ir vacinando à má fila e ao receber a informação de que os políticos decidiram vacinar-se sem critério nem ordem.

E tudo perante uma Procuradoria-Geral da República cada vez mais amorfa — que também fica calada.

Veja-se o caso do responsável pelo INEM do Porto que decidiu usar as 11 doses de vacinas que sobraram para inocular a pastelaria e o restaurante de francesinhas que ele e os seus colegas costumam frequentar. Diz o dr. Barbosa, que entretanto se demitiu, que “foi algo circunstancial por razões de proximidade e segurança. O facto de estarem ao lado facilitava a monitorização de possíveis efeitos secundários”. O chico-espertismo no seu máximo esplendor quando havia um quartel de bombeiros voluntários apenas a 3 minutos da delegação do INEM mas isso não suscitou nada ao dr. Barbosa e aos seus colegas.

E o que diz o Governo perante os sucessivos casos de violação das regras do plano de vacinação? Os ministérios da Saúde e da Segurança Social começam por confessar que não conseguem controlar e fiscalizar o processo de vacinação, sendo que os dirigentes dos lares falam apenas em “bom senso”. E só perante o clamor público é que a Segurança Social abre investigações e a Saúde ameaça com participações criminais e cria a regra que devia existir desde o início: perante sobras, têm que ser estipuladas antecipadamente os prioritários que tomam as vacinas. Este Governo está sempre a correr atrás do prejuízo.

5 A mais extraordinária das reações, contudo, foi de Francisco Ramos — um homem que tinha como sensato e moderado. Perante os sucessivos desvios e abusos com as sobras das vacinas, o responsável pela task force que coordena o processo vacinação foi buscar, imagine-se!, André Ventura para falar num “sentimento de justiça popular que faz muito pouco sentido”.

Respondendo a uma pergunta do jornalista da SIC que o entrevistou sobre a censura de quem se aproveitou das vacinas, passando à frente de profissionais de saúde e idosos, Francisco Ramos disse que “essa pergunta explica um pouco aqueles 11% ou 12% nas eleições presidenciais do passado domingo, um espírito vingativo que não me parece que seja muito bom para uma sociedade solidária como a nossa”.

Um alto funcionário público como Francisco Ramos tem ser neutro politicamente e ter o bom senso de não politizar o seu cargo. Muito menos para desculpar algo que é objetivamente censurável e, pelo caminho, insultar ainda 500 mil portugueses, classificando-os como fanáticos e extremistas. Nada de estranhar de alguém que, já sendo líder da task-force, fez questão que se soubesse que apoiava a candidata Marisa Matias.

Um conselho grátis para Francisco Ramos: trabalhe! Deixe a política para os políticos.

6 Estamos dormentes perante a autêntica vergonha nacional de estações internacionais, como a CNN, noticiarem o caos que reina no nosso SNS, das batotas com as vacinas também serem veiculadas no estrangeiro (propagando a ideia de que somos um país de chico-espertos) e de um jornal britânico com a importância do “The Times” revelar que temos um ministro da Educação que proibiu os alunos do setor privado de terem aulas à distância — e tudo isto quando o Governo faz uma auto-confissão da sua incompetência ao pedir ajuda internacional à Alemanha, Espanha e a outros Estados-membros da União Europeia.

Já agora, onde estão os militantes do Bloco de Esquerda, do PCP e alguns do PS que comparavam Angela Merkel a Hitler nos tempos da troika? E onde está a eurodeputada socialista Isabel Santos que ainda há poucos dias bramava em Bruxelas pelos 900 anos histórias de Portugal pelo singelo facto de um eurodeputado espanhol ter criticado o Governo de António Costa no caso do procurador europeu?

Estamos paralisados e perplexos. Não sabemos como reagir perante o caos que nos rodeia. Até quando?