António Costa

Palavra dada não é palavra honrada /premium

Autor
  • Filomena Martins
1.087

Costa foi apanhado na demagogia do seu próprio anzol. Morreu pela boca, como os peixes. A frase bonitinha “palavra dada tem de ser palavra honrada” tem ido por água abaixo a cada dia que passa.

Não sei se lhe escreveram, se lhe saiu espontaneamente. Mas mal ouvi a Costa aquele lema “palavra dada tem de ser palavra honrada” pensei logo, que mais cedo ou mais tarde, acabaria como os peixes: a morrer pela boca. Não precisei de esperar muito. Se a primeira metade da legislatura correu calma, com dinheiro para distribuir e facilidade em cumprir os acordos acertados com os parceiros da geringonça, agora que se aproximam as eleições e não há mais orçamento para esticar, Costa foi apanhado na demagogia do seu próprio anzol. E a frase bonitinha foi por água abaixo.

Só esta semana sucederam-se os casos.

O do Infarmed é só o mais emblemático de todos eles. Mesmo podendo ser acusada de estar a imitar Jerónimo de Sousa, uso mais uma expressão popular: o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita. Costa quis compensar o Porto porque se esqueceu inicialmente da cidade no concurso para a Agência Europeia do Medicamento. E, Eureka, lembrou-se rapidamente de mandar para lá a nossa autoridade nacional, como se fosse a mesma coisa. Não foi um processo feito à pressa. Foi uma coisa de que se deve ter lembrado enquanto se barbeava e pegava no telefone para ligar a Rui Moreira. Meteu depois o ministro ao barulho. Fez promessas várias. Argumentou que era o princípio da descentralização, quando tudo não passava de mais uma deslocalização (como a de muitas de empresas que já criticou). E acabou agora a recuar em toda a linha e a ter de admitir que o processo foi mal conduzido. Desonrando as suas próprias palavras.

Agora foram os taxistas. Para os desmobilizar após uma semana estacionados em plena Avenida de Liberdade, deu-lhes a entender que as autarquias iam ter mais “poder regulatório” sobre plataformas como a Uber. Ou seja, mandou-os para aquele saco escuro da descentralização onde estão todos os temas que são para resolver quando e se der jeito. É como deitar palavras ao vento.

Pelo meio, houve outro recuo. Afinal os cursos pós-Bolonha já não vão ser equiparados a mestrados. Era mais uma garantia que agora o governo diz que nunca fez parte das suas propostas. Fazer fez. Intenção também chegou a ser. O problema é que alguém nas Finanças deve ter andado a fazer contas e a perceber quanto é que estes mestrados podiam custar nas carreiras públicas. E lá se foi mais uma palavra de honra.

Foi o mesmo mal que afectou os professores e a sua progressão nas carreiras. Discordo totalmente das suas reinvindicações, que os coloca não só num patamar diferente dos outros funcionários públicos, como de todos os restantes trabalhadores. Mas não é isso que está aqui em causa. É ter-lhes sido prometida a recuperação total do tempo perdido e depois esse direito ter passado a ser uma ilusão mal Centeno puxou da máquina de calcular e viu que a soma dava mais de 600 milhões de euros (contas do próprio governo). E não houve emboscadas de Mário Nogueira, vozes grossas do Bloco ou do PCP que assustassem Costa. Quando não há dinheiro, a palavra e a honra são secundárias.

Podia ainda ir aos casos das bolsas de estudo para os alunos necessitados, que as estão a receber às pinguinhas (já chegaram a 17%!!!). Do processo das bolsas científicas da FCT, essa grande aposta do nosso primeiro-ministro, que pode deixar duas das nossas cientistas mais prestigiadas sem ordenado até ao final do ano. Lembrar a pediatria do hospital de S. João, para a qual se garantiu uma solução rápida, mas que só na passada semana viu ser aberto o concurso para as obras. Falar das reclamações dos médicos, enfermeiros, polícias, ou juízes, que estavam à espera do que lhe foi dito que iam ter e ainda não tiveram. Ou até anotar a vergonha de Pedrógão, onde as promessas feitas por Costa davam para fazer uma nova Enciclopédia Universal, mas onde a falta de controlo do uso de dinheiros públicos tem sido total.

Sim, também não posso deixar nem de falar de Tancos, nem da não recondução da PGR. Porque a saga do grave roubo das armas sobre a qual nos garantiram dar todas as explicações continua e vai continuar sem responsáveis políticos, como se viu pela forma como Costa fez a defesa do seu ministro da Defesa. E porque a sempre repetida causa Miss Universo da luta contra a corrupção esbarra na forma mal explicada como se substituiu a procuradora que mais investiu nessa limpeza dos vários sectores da sociedade portuguesa. É mesmo caso para dizer “ora bolas”! Onde está a palavra dada e honrada?

Quando era pequena a minha filha adorava “O Cuidado com as Imitações” do Sérgio Godinho. Chegava a repetir incessantemente nas viagens “põe a 4,” da colectânea “Setenta e Um- Oitenta e Seis”.

Demorei uns anitos para lhe explicar que a canção era uma metáfora aos políticos na generalidade e aos nossos em particular. Basta relembrar este bocadinho da letra.

Lá na aldeia havia um homem que mandava
toda a gente, um por um, por-se na bicha
e votar nele e se votassem lá lhes dava
um bacalhau, um pão-de-ló, uma salsicha

E prometeu que construía um hospital
Uma escola e prédios de habitação
e uma capela maior que uma catedral
pelo menos a julgar pela descrição

Ingenuamente, pensei que quando ela crescesse a realidade já tivesse mudado. Infelizmente, já quase a sair da faculdade e a entrar no mercado de trabalho, é fácil perceber que não. Basta-lhe ver as notícias de todos os dias. Palavras dadas nunca honradas que já sofreu na pele. O meu único conselho é que seja Casimiro, o nome pelo qual sempre conheceu a canção. Casimiro Baltazar da Conceição.

Mas… O Casimiro que era fino do ouvido
tinha as orelhas equipadas com radar
ouvia o tipo muito sério e comedido
mas lá por dentro com o rabinho a dar, a dar

E… punha o ouvido atento
via as coisas por dentro
que é uma maneira de melhor pensar
via o que estava mal

E como é natural

Tentava sempre não se deixar enganar

E dizia ele com os seus botões

Cuidado Casimiro …

Hoje, só mais uma coisa

  • O ex-presidente do Instituto Português do Desporto e da Juventude, Augusto Baganha, disse no Parlamento que teve pressões do Governo por causa da interdição da Luz na sequência da investigação às claques ilegais. Revelou mesmo que recebeu um SMS do secretário de Estado. Esta é uma acusação grave, muito grave mesmo. Uma coisa é Centeno pedir bilhetes para a Luz ou ver o ministro das Finanças e o primeiro-ministro aos pulos na tribuna presidencial de um clube com graves problemas com o fisco. A outra é este tipo de pressões ao mais alto nível. Não é por acaso que o clube acaba de contratar três dos maiores criminalistas do país.
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