O pormenor mais interessante de “The World As It Is” – as memórias de Ben Rhodes na Casa Branca de Obama – é, curiosamente, a narração de um episódio ocorrido após a eleição de Donald J. Trump. Rhodes, que esteve com Barack Obama desde a sua primeira campanha, foi de speechwriter a responsável pela comunicação do Conselho de Segurança Nacional, tendo sido uma das vozes que influenciou a política externa do ex-presidente dos EUA. Para um rapaz que em 2008 não tinha mais do que trinta anos, não está nada mal.

O tal episódio é narrado no final da presidência de Obama, quando este está prestes a ser sucedido pelo já eleito Donald Trump. Segundo Rhodes, no livro, Obama terá reagido assim à eleição do seu sucessor: “Não sei… Às vezes pergunto-me se não cheguei dez ou vinte anos adiantado”. A afirmação não é desprovida de senso e sintetiza bem o nosso tempo político. Para Obama, hoje um evidente moderado no campo Democrata, seria muito mais urgente derrotar Trump em 2016 (e em 2020) do que ganhar a John McCain e a Mitt Romney, como fez, respectivamente, em 2008 e 2012. E isso compreende-se. O facto de McCain e Romney serem, atualmente, figuras associadas a uma ala moderada inexistente nos Republicanos reforça a pertinência da citação.

Em menos de uma década, a esquerda e a direita norte-americanas perderam o seu centro (e os seus moderados), trocando-os pela polarização e pelo tribalismo partidário. Romney ter sido o único republicano a votar favoravelmente o impeachment de Donald Trump provou que o partido de Lincoln perdeu os valores de Lincoln. As primárias democratas, um triste espetáculo de tweets, soundbites, capas da Vanity Fair e hesitações, mostram como o partido de Obama reconhece a necessidade de mudança sem reunir a possibilidade de consenso.

Entre um jovem autarca do Indiana, mayor de uma cidade com pouco mais de 100 mil pessoas, e um veterano socialista do Vermont – que recusa revelar os seus exames médicos após sofrer um enfarte – não é difícil antever que o confronto entre os Democratas e Donald Trump em 2020 será tão nefasto quanto foi em 2016.

Bernie Sanders e Pete Buttigieg não pertenceriam ao mesmo partido se fossem europeus. O primeiro tem 78 anos, gozou a lua de mel na União Soviética, quase concorreu contra Obama em 2012, é brutalmente popular, defende um perdão massivo da dívida estudantil e um plano estatista cuja concretização falha, sucessivamente, em explicar. Além disso, incorrerá inevitavelmente na incongruência de apresentar um programa contra o sistema económico quando esse sistema económico – o capitalismo – manifesta os melhores resultados do século nos Estados Unidos.

Buttigieg tem menos quarenta anos do que Sanders, é o primeiro candidato abertamente homossexual na história dos EUA, serviu como oficial no Afeganistão, estudou em Harvard como bolseiro e está mais próximo dos conservadores em matérias fiscais e de política externa. A sua ascensão, se comparada com outros candidatos entretanto fora da corrida como Beto O’Rourke (congressista texano) ou Cory Booker (senador de New Jersey e ex-mayor de Newark – uma cidade três vezes maior que a South Bend de Buttigieg) é verdadeiramente inexplicável. Ter conseguido o dobro dos delegados de Joe Biden, um vice-presidente de Obama, no Iowa é outra amostra da convulsão que o Partido Democrata vive.

Por instinto, então, poderíamos deduzir que os Democratas fariam melhor em escolher um jovem, moderado e sem grandes complexos ideológicos para enfrentar Donald Trump em novembro deste ano. Se Obama, um ardente defensor da economia de mercado e do comércio-livre, continua a figura mais popular do seu partido, seria algo bizarro esse partido nomear um progressista ortodoxo como Bernie Sanders para candidato à presidência. Mas há que entender a tentação, mesmo que discordando dela.

Entre 2012 e 2016, o Partido Republicano impediu praticamente a administração Obama de governar os Estados Unidos da América, shut-down atrás de shut-down, boicotando cada tentativa de legislação, resumindo o segundo mandato do Presidente a ordens executivas e a acordos internacionais (Cuba, Irão, Paris), pervertendo o Senado e o Congresso como mecanismos e instituições de escrutínio. O dilema Democrata está aí: de que serve ser moderado – e promotor de consensos – numa paisagem política polarizada, em que o outro lado do hemiciclo só reconhece legitimidade a si próprio?

A democracia ocidental, relembrava há umas semanas a “The Atlantic”, depende da aceitação de derrotas, de deixar o outro exercer poder quando o ganha. Na América, e não só, é esse princípio que está em crise – e que colocará em causa todos os outros.