Não foi assim há tanto tempo. No final de 2013 um bispo, alguém de quem se esperaria ponderação, anunciava numa televisão que “os portugueses não iam ficar parados”. No fundo D. Januário Torgal Ferreira não fazia mais do que repetir os anúncios que, meses e meses a fio, Mário Soares, com o seu lendário faro político, vinha a fazer sobre a “violência que aí vem”, chegando ao ponto de recomendar que o primeiro-ministro não deveria correr o risco de saír à rua.

Todos nos lembramos desses meses, desses anos, de todas essas previsões feitas com ar sério. Escrevi na altura sobre o erro dessas previsões, mas nessa altura ainda era cedo – ou temerário – prever uma inversão de ciclo no tormento da crise. Porém era isso o que já estava a acontecer. E o que ninguém queria ver, pois ainda dominava a tese da “espiral recessiva”.

Em Novembro de 2013, altura em que o bispo deu a sua incendiária entrevista, o desemprego, que tinha atingido o pico em Janeiro de 2013, com 17,4%, já estava a descer há dez meses, situando-se então nos 15,4%. Os juros da dívida pública, que tinham atingido no início de 2012, estavam a cair há quase dois anos, apesar do episódio Portas em Julho de 2013. De resto, os juros da nossa dívida começaram a cair seis meses antes de Mario Draghi ter proferido a sua famosa declaração sobre o BCE “fazer tudo o que fosse necessário para salvar o euro”, ou seja, começaram a cair por mérito nosso só depois beneficiaram da ajuda da acalmia dos mercados induzida pelo BCE.

Mas há mais. Olhando para os dados do INE divulgados este segunda-feira, na altura da entrevista a economia portuguesa já tinha recomeçado a crescer. Depois de bater no fundo no primeiro trimestre de 2013, no quarto trimestre desse ano o PIB registado já foi 1,4% superior do PIB do primeiro trimestre.

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Podia continuar a desfilar indicadores, mas todos eles apontam no mesmo sentido: algures entre o final de 2012 e meados de 2013, as coisas começaram a melhorar em Portugal. E não falamos apenas números: falo do que salta à vista dos que estão atentos, bastando andar na rua, frequentar os transportes públicos ou passar pelas áreas comerciais. Foi mau, muito duro, mas o pior já passou.

Mas há quem prefira ignorar esta evolução, sendo por isso indisfarçável a irritação com que toda a oposição recebe as boas notícias que têm vindo do lado da economia, do emprego, do investimento. É sempre tudo mau, e o que é bom corresponde a falsificação ou a maquilhagem dos números oficiais – números produzidos pelas mesmas instituições, os mesmos técnicos e os mesmos dirigentes que, enquanto deram más notícias, mereciam o seu aplauso.

Eu sei que, com números, pode-se fazer tudo. Há sempre uma forma de olhar para eles que favorece mais o governo e outra que favorece mais a oposição. Mas também sei que políticos incapazes de compreenderem a evolução que o país teve são, depois, incapazes de passar uma mensagem mobilizadora ao eleitorado. Por exemplo: que sentido faz o slogan do PS “vamos virar a página da austeridade” se existe a percepção de que essa página já foi virada (percepção que eu até acho perigosa, mas isto sou eu cá com os meus botões)?

Neste quadro quase obsessivo de pintar sempre tudo com corres negras acaba-se a cometer erros, alguns incompreensíveis. Vale a pena explicar.

Segunda-feira, depois de saírem os números do desemprego, o PS não cometeu o erro de reagir com fúria, como fizera no início de Agosto, preferindo deixar a Mário Centeno o comentário político. Sendo Mário Centeno um especialista em mercado do trabalho, ouvi-o com atenção redobrada. Primeiro, porque teve a franqueza de dizer que eram boas notícias – é um avanço, mesmo quando a seguir se acrescenta que todos têm mérito menos o Governo. Mas adiante, até porque depois foi mais sereno a tentar encontrar explicações para a evolução da taxa de desemprego, até quando falou da emigração. Mas, ao ouvi-lo, houve uma passagem que me surpreendeu: “O problema com os números do desemprego é que eles têm de valer em conjunto com os números do emprego. Os processos emigratórios em curso em algumas economias, caso da portuguesa, levam a um encolhimento do mercado de trabalho, que se traduz numa redução da população ativa (…). Esse número não deixou de cair desde o primeiro trimestre de 2012, num total de 45 meses em queda”.

A primeira razão da minha surpresa foi a da utilização de um indicador novo: o da população activa. Primeiro, só se falava de taxa de desemprego, porque esta estava a subir. Quando a taxa de desemprego começou a cair, passou a falar-se da população empregada, pois aí a comparação com os anos de Sócrates não era desfavorável. Agora, de repente, surge no debate político o indicador “população activa”, um indicador importante mas que é influenciado não apenas pela emigração, mas também pela demografia ou pela idade em que se começa a trabalhar (e esta aumentou com o aumento da escolaridade obrigatória).

Mesmo assim fui verificar. E, surpresa, acontece que , nas séries do INE, há dois trimestres que a população activa está a aumentar. A aumentar pouco, mas a aumentar. Ou seja, é preciso subtrair seis meses aos 45 de Mário Centeno. Será esse aumento apenas um efeito da sazonalidade? Não sei. Mas sei que escolhê-los mostra uma fixação: seja por que lado for, dê-se a volta que se quiser dar, a oposição insistirá na ideia do “tudo vai mal”.

Ora isso descredibiliza-a. Os portugueses estão a consumir mais (o que nem me entusiasma muito, pois desequilibra as contas externas): mais 3.3% disse o INE no seu último boletim. E sobretudo investiram mais 7.0% (o que já me entusiasma mais). Não queria continuar a maçar-vos com números, mas quando vemos que em Julho o consumo de combustíveis disparou, sinal de que carros estão a sair das garagens e que há mais gente a desapertar o cinto, ou quando constatamos que a prestação da casa voltou a cair, ou ainda que a confiança dos consumidores está em máximos de 2001, vemos como foi grande o caminho percorrido desde esse final de 2013 em que ainda se falava de “revoltas violentas”.

Há muitos destes indicadores que, sendo bons para a qualidade de vida das pessoas, não são os melhores, na minha perspectiva, para um crescimento saudável. Também sei que muitas das doenças da economia não desapareceram – leiam a entrevista ao Diário Económico de Albert Jaeger, o austríaco que dirigiu o escritório do FMI em Lisboa nos últimos anos – e que ainda temos muitos anos difíceis pela frente. Mas isso não chega para o discurso mais ou menos catastrofista do “virar de página”: não cola nem mobiliza.

Quem o diria há apenas alguns meses? E porquê insistir, quando está à vista a viragem? Só poder ser teimosia: afinal quem mais se enganou nas previsões foi quem falou todo o tempo de catástrofe, e agora não entende o que se está a passar. Mas suspeito que os portugueses, apesar de tanta cacafonia obsessiva sobre a crise, já o entenderam.