Auto

Insultos, palavrões e obscenidades

Autor
518

A road rage, ou fúria ao volante, ataca os condutores do mundo inteiro e dispara em nós mecanismos que levam a fazer gestos obscenos, a trocar frases ameaçadoras e a ter instintos de aniquilar o outro

Desço uma rua antiga de sentido único e de repente vejo subir, a abrir, um carro em contra-mão. Paro porque percebo que ele não vai parar, e quando passa ao meu lado em vez de um pedido de desculpas, um sinal de gratidão por ter evitado um choque e ter encontrado forma de ele poder passar, ou uma frase tipo “não vi o sinal”, recebo uma ofensa em toda a linha. Embora eu preferisse não expor aqui que se tratava de um taxista, era realmente um taxista que subia com o carro cheio de jovens clientes para um hostel no coração da cidade. Não pretendo alimentar nenhuma polémica acerca dos taxistas porque não é esse o ponto desta crónica. Conheço muitíssimos bons profissionais em quem confio inteiramente, e se enuncio este facto é apenas para sublinhar que é tecnicamente impossível um taxista desconhecer que aquela rua de Lisboa antiga apenas desce, não sobe. É assim há séculos.

O meu ponto, nesta crónica, é focar no fenómeno universal que dá pelo nome de road rage e é como um vírus a que ninguém é imune. Uma doença que ataca e contamina todos, sem excepção. Passada a perplexidade da cena em que fui verbalmente agredida sem ter feito absolutamente nada e sem culpa absolutamente nenhuma, confesso que no instante imediatamente a seguir senti que eu própria seria capaz de agredir o condutor. E não falo apenas de palavras ou insultos, notem. Percebi que o meu instinto e, assumo, a minha vontade era dar-lhe um murro na cara e um pontapé no carro. Infelizmente todos somos vulneráveis à raiva, e quando estamos ao volante todos (mais uma vez sem excepção!) somos capazes de fazer e dizer coisas que seriam inconcebíveis no nosso estado normal. Daí tantas vezes vermos pacatos cidadãos e ternos pais de família insultarem e ameaçarem outros condutores em frente dos seus próprios filhos, ou senhoras muito bem educadas gritarem palavrões a desconhecidos, mandando-os para lugares que me abstenho de enunciar.

A road rage, ou fúria ao volante, ataca os condutores do mundo inteiro e dispara em nós mecanismos que nos levam a fazer automaticamente gestos obscenos, a trocar frases ameaçadoras e a ter instintos de aniquilar o outro. Ninguém é imune a este fenómeno, insisto, e é importante saber isto, para podermos accionar os mecanismos e automatismos que estão ao nosso alcance para neutralizar o desejo de retaliação, atenuando o ódio instantâneo. Há centenas de especialistas no mundo inteiro a estudar este tema, e alguns deles criaram cursos de traffic psychology, porque infelizmente guiar em estado de raiva latente é uma espécie de fatalidade moderna. A primeira estratégia que apontam é praticar uma condução mais defensiva do que ofensiva. Os motards sabem isso, até pela vulnerabilidade que sentem por andarem sobre duas rodas, mas é importante que todos interiorizemos esta possibilidade de antecipar os erros dos outros sem retaliar imediatamente. Como? Treinando a capacidade de admitir o erro aos outros, recordando os nossos próprios erros de condução. E porque também ninguém está livre de errar, e aquilo que condenamos hoje é muitas vezes igual a qualquer coisa que inadvertidamente fizemos ontem (ou faremos amanhã!), também vale a pena apostar no humor. Sim, no sentido de humor que nos permite ter distância crítica, sorrir, encolher os ombros e seguir em frente. É vital neutralizar em nós o instinto de vingança e travar o impulso dar uma lição ao outro. O sentido de humor pode ser um escape para situações de tensão na estrada. Já vi acontecer à minha frente e já percebi como pode ser um diluidor de nervos e tensão. Os outros irritam e enervam-nos imenso, de facto, mas quantas vezes os outros não somos nós e as nossas manobras mal feitas, inadvertidas ou repentistas?

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Pedofilia

Igreja segura, tolerância zero /premium

Laurinda Alves
270

O Papa Francisco convocou a cimeira e vão ser dias duros, de via purgativa, mas que marcarão uma nova era. Não era possível manter a impunidade nem o silêncio, é preciso saber ler os sinais de alerta.

Crianças

Netos 5.0 sem birras? /premium

Laurinda Alves
590

Não sei se já repararam que hoje as crianças fazem menos birras fora de casa. Sempre que uma vai abrir a boca para gritar, chorar ou pedinchar alguma coisa, basta dar-lhe um telemóvel para a entreter.

Cancro

Careca Power! /premium

Laurinda Alves
810

Muitos doentes oncológicos, homens, mulheres, jovens ou crianças, sentem que não são ajudados durante a sua doença. Associações como o Careca Power servem para sensibilizar e estabelecer prioridades.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)